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O ambiente audiovisual vem produzindo uma nova percepção e realidade tecnológica, modificando o olhar do telespectador. O “zapping” se tornou capaz de realizar recortes, colagens e sobreposições de imagens e narrativas, moldando um grande mosaico de pequenas bricolagens

Foto: Camila Bravo
http://www.flickr.com/photos/bombona/

 

14/03/08
A sinergia multimidiática e a fragmentação do olhar


Thompson afirma que “os meios de comunicação têm uma dimensão simbólica irredutível: eles se relacionam com a produção, o armazenamento e a circulação de matérias que são significativos para os indivíduos que os produzem e os recebem”. O uso dos “novos” meios de comunicação implica no aperfeiçoamento de outras formas de ação e de interação no mundo social, criando maneiras alternativas para o relacionamento do indivíduo com os outros e consigo mesmo.

Com o avanço das tecnologias, os indivíduos passam a interagir uns com os outros ainda que não compartilhem do mesmo ambiente espaço-temporal. Thompson propõe três formas de interação criadas pelos meios de comunicação: interação face a face, interação mediada e quase-interação mediada, mas em caráter híbrido, pois, ele afirma que uma interação pode ser resultado da mistura de diferentes formas de interação. Além disso, também não se esgotam os possíveis cenários, visto que a “mistura interativa” da vida social mudou.

A quase-interação mediada refere-se às relações sociais estabelecidas através dos meios de comunicação de massa, como por exemplo: livros, jornais, rádio, televisão, cinema etc. Essa interação tem uma extensa disponibilidade de informação e conteúdo simbólico no espaço e tempo. Assim, a quase-interação mediada produz formas simbólicas para um número indefinido de receptores.

Hoje, os meios de comunicação estão cada vez mais híbridos. A televisão, o cinema, a videoarte e a maioria das formas de mediações experimentam outros elementos, desmistificam antigas fórmulas e passam a intervir de forma pluralizada na interação. A convergência de diversos meios e mídias, proporcionada pela união de várias tecnologias comunicacionais, é chamada por Julio Plaza de sinergia multimidiática.

Assim, observando as transformações perceptíveis nas formas de construção e representação dos elementos gráficos e sonoros, ao longo do tempo, pode-se dizer que o ambiente audiovisual vem produzindo uma nova percepção e realidade tecnológica, modificando, inclusive, o olhar do telespectador. Isso porque, essa estrutura híbrida está cada vez mais arraigada nos modos de recepção do homem contemporâneo.

Para Umberto eco, a televisão teve um papel fundamental na transformação dessa sensibilidade. O acesso ao controle remoto conferiu aos telespectadores o livre-arbítrio. É notório que a maioria das pessoas, que se dispõe a ver televisão, lance mão do velho “zapping” para selecionar o conteúdo de maior interesse.

No entanto, o “zapping” se tornou um recurso poderoso, capaz de realizar recortes, colagens e, às vezes, sobreposições de imagens e narrativas. Quem nunca se aventurou a ver dois ou três canais ao mesmo tempo? Aliás, na medida em que são alternados, é possível acumular novas informações, moldando um grande mosaico de pequenas bricolagens.

Pouco depois, acostumado à navegação televisual, o espectador se viu perante as novas possibilidades conferidas pela Internet, modificando de fato a construção do seu olhar sobre o mundo. Uma das mudanças mais significativas foi a construção de outras formas narrativas através do hipertexto. É possível interagir com vários elementos, imagens e sons ao mesmo tempo.
Fixada essa nova concepção, as denominadas novas mídias, surgiram a partir do condicionamento do espectador contemporâneo. Os videogames, os jogos virtuais, a arte eletrônica etc. se relacionam de maneira distinta com o novo espectador. O cinema, por exemplo, começou a explorar outras formas narrativas, sendo possível acompanhar mudanças, até mesmo, no setor comercial.

Recentemente, o filme “Desejo e Reparação”, laureado com o Oscar de Melhor Trilha Sonora, este ano, surpreendeu o público com uma sutil mudança na estrutura narrativa. O filme não demarca as mudanças cronológicas, deslizando do passado para presente (e vice-versa) sem as triviais informações de tempo.

Apesar de não ser novidade no campo da montagem cinematográfica, o filme é uma prova que o telespectador está preparando para experimentar novas formas de interação com o material audiovisual. Quem sabe, com esses pequenos exemplos, o cinema industrial encontre uma forma de aflorar sua potencialidade e se revitalizar.

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Luciana Andrade é jornalista e pós-graduada em História da Cultura e da Arte. Atualmente, é membro do Centro de Experimentação em Imagem e Som da PUC Minas. Seu objetivo é instigar novas discussões em torno do universo audiovisual contemporâneo.Fale com ela: lucianadrade2003@yahoo.com.br


   
 

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